Xingu, o Filme

Numa noite de outubro de 1941, enquanto sonhava, Apowe ficou sabendo que uma caravana de forasteiros estava bem próxima e que ele precisava preparar as pessoas da aldeia. Não seria o contato oficial, mas tinha waradzu (homem branco) acampado a poucos quilômetros. Estavam a caminho e traziam presentes. Apowe reuniu a sua comunidade e falou sobre o sonho, deixando claro que não era para ter confronto. Houve muita discussão, algumas pessoas não gostaram da ideia de recebê-los, mas acabaram concordando.

Dias depois, no início de novembro, uma “frente de atração” – como era chamada – do Serviço de Proteção ao Índio (SPI) chegou à aldeia nas primeiras horas da manhã. Eles se aproximaram pelo Rio das Mortes, de barco, a cavalo e de jipe. Liderado por Genésio Pimentel Barbosa, o grupo contava com um sertanista da região e dois intérpretes Xerente. Ao entrarem na aldeia, foram conduzidos até a oca do Apowe, onde o cacique os aguardava. Ele havia feito uma esteira grande, bonita, especialmente para a ocasião, e a estendeu para colocarem os presentes. Eles deram espelhos, facas e outras “utilidades”, trocaram algumas palavras e foram embora.

Apesar de ter sido um encontro tranqüilo, alguns índios não gostaram. Queriam ir atrás dos waradzus para matá-los. Apowe e outros mais velhos não deixaram. À noite, o wa´rã (reunião diária, ao anoitecer, no centro da aldeia, em torno da fogueira) foi palco de grande discussão. O cacique falou:

- Não dá mais para fugir. O tempo de vivermos sozinhos está acabando. Vamos ter que aprender a viver com outras pessoas, os não-índios. O contato é inevitável.

E alguns retrucavam:

- Como a gente vai fazer contato, se esses brancos vão tomar nossas terras, trazer várias doenças?

- Mas não tem jeito, temos que fazer. Depois a gente vai ver se vamos viver numa terra grande ou não. Mas chegou o tempo.

E assim prosseguiu o wa´rã por horas.

No dia seguinte, um pouco antes de amanhecer, alguns índios descontentes…

livro brasileiro

O trecho acima é do capítulo 11 do meu livro, Meu Avô A´uwê, da parte Massacre de Pimentel Barbosa, o que significa que todos da expedição foram assassinados a golpes de borduna, incluindo Pimentel Barbosa.

A história se passa com os Xavantes da atual aldeia Wederã e de outras aldeias ali perto, todas localizadas dentro da reserva Pimentel Barbosa, no sudeste do Mato Grosso.

Citei o trecho para dar uma ideia, através da visão indígena, do contexto do filme Xingu, que chega aos cinemas brasileiros em 6 de abril e conta a fascinante jornada dos irmãos Villas Bôas pelo interior do país e pela região que, décadas depois, seria transformada no Parque Nacional do Xingu, também no Mato Grosso.

cinema brasileiro

O filme, dirigido por Cao Hamburguer e co-produzido por Fernando Meirelles, traz os atores Felipe Camargo, João Miguel, Maiarim Kaiabi e Totomai Yawalapiti.

Por ora, vi somente o trailer e parece uma grande produção. Espero que o mesmo ocorra em relação ao conteúdo, trazendo uma visão realista do que foi a Expedição Roncador-Xingu e toda a questão envolvendo os índios.

Esta semana, Xingu foi selecionado para a 11ª edição do Festival de Tribeca, que acontece em abril, em Nova York. Se a mensagem for boa, que se espalhe!

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2 Responses to Xingu, o Filme

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  2. guilherme says:

    Meu tio estava na expedição de Pimentel Barbosa e foi morto pelos indios !!

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