Um caos organizado. Assim é o Vivid Sydney, maravilhosa ideia surgida em 2009 para desculpem a frase fácil esquentar o inverno da cidade – culturalmente falando.
E acertaram em cheio juntando luz, música, interatividade e, o mais importante, um mundaréu de pessoas nas ruas.
Mesmo com temperaturas baixíssimas e muitas vezes chovendo, o povo lota o centro de Sydney para visitar as instalações, fotografar e fazer aquela social que, se fosse apenas mais uma noite de inverno, provavelmente não faria.
E isso resulta em bares, restaurantes e pubs cheios, população consumindo, economia aquecida e, novamente mais importante, pessoas felizes.
Nada melhor do que o cidadão na rua, usufruindo a cidade, ocupando gratuitamente o espaço público, se divertindo.
A cidade oferece o entretenimento e, em troca, ele registra e compartilha nas redes as fotos da Opera House iluminada de maneira diferente da habitual, que rodam o mundo.
No ano seguinte, quem sabe aquele grupo do Japão não vem visitar pessoalmente, aqueles dois nova-iorquinos não deem uma passada para pegar algumas ideias e os pais daquela brasileira não aproveitam para conhecer a casa da filha durante o evento?
Aproveitando que nesta sexta-feira, 25 de março, começa o Vivid Sydney, festival mais iluminadamente criativo do inverno da cidade (ou seria o mais criativamente iluminado?), segue minha versão latino-americana, sem parentes importantes e vinda do interior do festival.
As fotos são de The Rocks, um dos locais onde haverá instalações do Vivid – os outros spots são Circular Quay e Opera House, incluindo Customs House e Museum of Contemporary Art (este, por sinal, acabou de passar por reforma e está ótimo por dentro e incrivelmente feio por fora, na parte que dá pra George St).
Bem, mas em vez de soluções geniais que fazem do Vivid o segundo maior festival de luz e música do Hemisfério Sul (o primeiro, claro, é a magnífica árvore de Natal do Parque Ibirapuera, em São Paulo), o meu genérico traz uma casa sorrindo e um túnel mal-encarado.
Não existe uma pessoa que, ao passar pelo Hero of Waterloo, em The Rocks, Sydney, numa tarde de sábado ou domingo, não sinta uma empatia especial pela cantora, saxofonista e trompetista Valda Marshall, figuraça de pouco mais de oito décadas de vida.
Quanto mais vou lá, mais descubro sobre ela (e a admiro mais). E agora com a vantagem de que Valda está melhor do que nunca.
É verdade!
Nas últimas vezes em que conversamos, foi realmente complicado entender o que ela falava, pois a voz saía muito baixa e truncada. É a idade, imaginamos.
Mas agora, graças a uma pneumonia em um dos pulmões, a respiração voltou ao normal, e, por conta da internação hospitalar que a deixou longe das apresentações, das variações de temperatura e do marido-pianista-boêmio, ela e seu corpo puderam, finalmente, tirar merecidas e necessárias férias, coisa que não faziam há alguns pares de décadas, e descansar.
Resultado: taça de vinho na mão e dicção absolutamente clara, estou me sentindo ótima para desfrutar cada vez mais as coisas boas da vida.
Gênia!
E ela se tornou inspiração ainda maior pra mim quando contou sobre um problema que teve na infância, durante tempo em que suas pernas não tinham forças suficientes para aguentar o peso do corpo, o que a impossibilitava de andar sem ajuda.
Era década de 1930 em Sydney e, com a filha desenganada pelos médicos, os pais recorreram a um padre em busca de algum milagre, cura espiritual ou algo do tipo.
O pároco, ao ver o quadro da criança, não teve dúvida. A levou para Bronte Beach, fez um buraco na areia e a colocou dentro. Na sequência, cobriu a enferma até o os ombros e falou a palavra mágica: saia!
A operação foi repetida diariamente, até que num belo dia, após esforços herculanos para se livrar de toda aquela areia, ela voltou a pisar firmemente no chão e a andar sem necessidade de apoio algum.
Milagre ou fisioterapia?
Independentemente da resposta, vida longa a Valda Marshall – a Mary MacKillop dos pagões!
Como outubro é o mês mundial da cerveja, nada como fechá-lo em um festival a céu aberto, em The Rocks, com algumas das melhores cervejarias artesanais da Austrália.
Neste sábado, das 12 às 20h, e domingo, das 12 às 17h, acontece a sétima edição do The Australian Beer Festival, sensacional evento organizado pelo Australian Hotel (Gloucester Street), um dos pubs mais tradicionais de Sydney.
Ao todo são mais de 120 cervejas, num total de 20 mil litros consumidos por cerca de 12 mil pessoas. Ou seja, é tecnicamente o paraíso em forma de taps.
No festival, estarão cervejarias grandes como Coopers e Cascade, facilmente encontradas na maioria dos pubs australianos, e outras que vocês provavelmente nunca ouviram falar como, por exemplo, Pinchgut, de Sydney, Longboard, de Thirroul (NSW), Holgate, de Woodend (VIC) e Burleigh, de Burleigh Heads (QLD).
Para facilitar a vida de quem pretende ir, seguem 3 dicas de cervejarias que vocês obrigatoriamente precisam visitar:
John Boston – Sydney (NSW)
Por que é a primeira da lista? Simplesmente porque é a primeira cerveja produzida em Sydney, ou melhor, na Austrália. É verdade! John Boston foi um cirurgião e boticário inglês que após falhar na tentativa de extrair sal da Baía de Sydney, em 1794, resolveu investir em cerveja.
Aproveitando o moinho que construíra onde é hoje o Royal Botanic Gardens, Boston entrou para a história ao produzir a primeira cerveja em solo australiano, em 1796. Essa cerveja existe até hoje – obviamente, diferente da original – e é encontrada nas versões Boston’s Mill Pale Ale e John Boston Premium Lager.
Matilda Bay – Dandenong (VIC) A Matilda produz cervejas que marcam forte presença nos pubs e bottleshops como Beez Neez, Redback e Fat Yak (uma das minha favoritas na Austrália), e também outras não tão populares.
Quando experimentei a Fat Yak pela primeira vez, numa degustação conduzida por um de seus criadores, fiquei impressionado com uma cerveja que eles ainda estavam desenvolvendo (não lançaram até hoje) e trazia no final um sabor de bacon defumado e-p-e-t-a-c-u-l-a-r. Isso mesmo, bacon defumado. Fiquem de olho, caso eles levem alguma novidade.
4 Pines – Manly (NSW) Os motivos pelos quais indico esta cervejaria são simples: as cervejas são muito boas e os caras realmente entendem do assunto. Não por acaso desenvolveram a primeira cerveja do planeta para ser consumida no espaço. Vocês leram bem, no espaço, fora da órbita terrestre. Em parceria com a Saber Astronautics, eles criaram a Vostok Stout, testada, aprovada e de olho no turismo espacial que começa em 2012 (vejam o vídeo abaixo).
Outro motivo é o fato da cervejaria estar situada a exatos 30 minutos de ferry do festival. Ou seja, se a fanfarra da tarde não for suficiente, pegue a ferry para Manly e, chegando lá, na própria avenida principal antes do Corso, do lado direito, está o 4 Pines, bar em estilo alemão como temos no Brasil que produz as cervejas lá mesmo.
Também não deixem de experimentar: Mountain Goat – Richmond (VIC), Stone & Wood – Byron Bay (NSW), Little Creatures – Fremantle (WA) e, para os entusiastas dos orgânicos, Koala Beer – Cooranbong (NSW).
Que a força do malte e do lúpulo esteja com vocês!