Entrevistas da edição Hoje é Dia do Rock, Bebê! #8 da Newsletter.
Há décadas, dizem que o rock morreu. Será? Para responder a pergunta (e outras tantas), entrevistei Hugo Mariutti, guitarrista que está em turnê nacional com o Viper, no Brasil, e Bruno Granato, jornalista especializado em música e videomaker que chama a Islândia de lar (sim, a terra do gelo vai muito além da Björk, musicalmente falando).
Eles comentam sobre a cena atual do rock em suas respectivas praças, o que estão fazendo, respondem se o rock está muerto e, claro, elegem uma música para homenagear o dia de hoje.

Hugo Mariutti
Há décadas, dizem que o Rock está morto. Ele está? Acredita que um dia vá morrer?
Hugo Maritutti (BR): De maneira alguma vai morrer, na verdade o que precisamos é reciclar sempre as bandas. Temos shows lotados, bandas excelentes, produçoes impecáveis. O Rock sempre é dado como morto, fazendo uma analogia tosca, é o Jason do sexta-feira 13.
Bruno Granato (IS): Acho que depende do mundo em que cada um vive, musicalmente falando, quem acha que o rock é só Elvis Presley, então esse rock morreu mesmo, apesar da incrível influência atravessando gerações. Mas pessoalmente acho ridículo dizer que algo musical morreu, pra mim nem o axé morreu, nem a lambada, muito menos o rock! Quem somos nós para rotular um artista, definir o que é rock ou não e ainda mais decretar sua morte. Acho que o que morre é a vontade da pessoa ouvir, e não a música em si.

Na rua, durante a “virada cultural” de Reykjavík. Foto de Bruno Granato.
Como você vê a atual cena do rock no Brasil?
Hugo Maritutti (BR): Tem cena e muito forte, pois todas as bandas internacionais, devido à crise mundial e da indústria fonográfica, incluíram o Brasil na rota. Como o preço dos ingressos é fora da realidade nacional, o público escolhe determinado evento, pois ele não consegue ir em todos que gostaria, e às vezes isso pode dar a impressão de que a cena caiu.
Fale um pouco sobre o rock na Islândia?
Bruno Granato (IS): A música na Islândia é algo muito presente, desde crianças já aprendendo a tocar instrumentos até as inúmeras opções de shows e discos sendo lançados. Na verdade a cultura em geral é muito forte por aqui, muitos artistas, poetas, músicos, pintores, etc… galerias de arte espalhadas pela cidade assim como bares com música ao vivo. Pode se dizer que o rock teve um momento marcante na Islândia no começo dos anos 80, quando foi feito o documentário Rock i Reykjavík, filme que mostra a cena musical alternativa de Reykjavík, principalmente com punk e new wave, incluindo uma banda chamada Tappi Tíkarrass, que tinha no vocal uma tal de Björk. Aliás, a cena musical islandesa vai muito além de Björk e Sigur Rós, com artistas produzindo música com as mais variadas influências. Tem bandas para todos os gostos, desde o hardcore do Agent Fresco até o eletrônico Gus Gus, passando por coisas mais experimentais como Múm, cantoras como Ölof Arnalds e até mesmo disco music com o Boogie Trouble.

Na rua, durante a “virada cultural” de Reykjavík. Foto de Bruno Granato.
Fale um pouco sobre elas?
Bruno Granato (IS): Sin Fang é um projeto do Sindri Már Sigfússon, vocalista e guitarrista do Seabear e na minha opinião ele é o músico islandês mais talentoso da atualidade. Sin Fang inclusive já se apresentou no Brasil em 2010. Sóley, cantora e pianista é também integrante do Seabear e aproveita a pausa da banda para lançar seu elogiado álbum solo chamado “We Sink”, com som mais delicado e cheio de texturas. FM Belfast não é tão novo mas é dono da melhor performance ao vivo atualmente, os shows são uma festa absurda para dançar até perder as calças, como cantam no hit Underwear. Snorri Helgason é outro músico de muito talento com dois discos lançados, faz folk music e me lembra muito o americano Bon Iver. Lockerbie é uma das boas promessas do novo rock, ainda estão na faixa dos 20 anos, cantam somente em islandês, lembra Sigur Rós em alguns momentos e eles devem gravar em breve o segundo disco (provavelmente vou registrar em vídeo o trabalho deles em estúdio). Of Monsters And Men é a banda “do momento” aqui na Islândia ou o “the next big thing” acontecendo agora. Ano passado gravei alguns shows deles em bares de Reykjavík e em questão de meses, eles conseguiram um contrato com a gravadora Universal Music, estão fazendo shows esgotados nos EUA e Europa sem parar, incluindo performances em grandes festivais como Lollapalooza e Reading Festival. Semana passada eles fizeram o “show da volta pra casa” aqui na Islândia, tocaram de graça e atraíram cerca de 15 mil pessoas em um parque de Reykjavík (lembrando que a população inteira da Islândia é de pouco mais de 300 mil pessoas). Mas o curioso é que o som do Of Monsters And Men não tem nada de novo, é fácil ver a semelhança com nomes como Arcade Fire, Edward Sharpe & Magnetic Zeros, Mumford & Sons etc. Eles cantam em inglês e fazem pop rock de qualidade, daqueles com refrão grudento pra galera cantar alto. Venderam mais de 100 mil cópias nos EUA e foram parar na Billboard. Algo realmente surpreendente para uma banda islandesa.

Viper
Li que a turnê com o Viper está enchendo as casas por onde passa, é isso mesmo, esperava essa resposta do público?
Hugo Maritutti (BR): Sinceramente, não esperava essa procura, justamente por conta desta avalanche de shows internacionais no Brasil, mas estamos conseguindo um feito extraordinário. Estamos muito felizes com esta procura e procuramos fazer realmente um puta show para todos. Quem já, percebeu a energia que está tendo.
Como você foi parar na Islândia?
Bruno Granato (IS): A primeira vez que tive vontade de conhecer a Islândia foi após assistir um documentário chamado Heima, que mostra o Sigur Rós em uma turnê percorrendo toda ilha. Me chamou atenção não só a paisagem incrível e surreal do lugar mas também as pessoas, fiquei intrigado com a sede que essas pessoas tem por cultura, pois no filme mostra que nos shows muitas crianças e idosos estão presentes, famílias inteiras realmente prestando atenção na música. Então tive a oportunidade de passar uma semana em férias e depois resolvi voltar para morar e interagir com essas pessoas.

Reykjavík. Foto de Bruno Granato.
Você vive e respira heavy metal há, no mínimo, 20 anos. Dos tempos de Black Jack Bar até hoje, você sente que o público tem aumentado, diminuído ou é a mesma coisa?
Hugo Maritutti (BR): Acho que o público é sempre muito parecido, tem alguns picos, como nos anos 90 com o Black Album do Metallica, ou no começo dos anos 2000, e tem épocas que ele demora um pouco mais para se renovar, mas acho que sempre vai ter uma quantidade parecida. Como falei antes, hoje em dia se espalha mais, pois são muitos eventos acontecendo ao mesmo tempo, e isso pode gerar um interpretação errada.
Desde quando está envolvido com música?
Bruno Granato (IS): Desde sempre, primeiro ainda criança já ouvindo rádio e gravando as músicas preferidas em fitas K7 e depois ao me formar em jornalismo passei a escrever sobre música e acompanhar shows. Já nos últimos dez anos trabalhei documentando em vídeo shows, entrevistas, programas de tv, documentários, gravações em estúdio etc.
Como vê a internet, mp3 e as mídias sociais para a cena de vocês?
Hugo Maritutti (BR): Como tudo, tem seu lado bom e seu lado ruim. Lado bom é que a sua música chega onde talvez jamais chegaria antigamente, porém sua música pode não chegar a lugar algum devido ao excesso de informações que nem sempre tem qualidade.

Além do Viper, quais são os outros projetos que tem trabalhado no momento?
Hugo Maritutti (BR): Este mes sai o segundo CD da minha outra banda, REMOVE SILENCE, um som diferente, pois temos a proposta de não termos um rótulo, sempre com letras bem politizadas e atuais. Em agosto sai o terceiro CD solo do André Matos, do qual faço parte da banda também.
Onde mora e o que faz atualmente?
Bruno Granato (IS): Hoje moro em Reykjavík e trabalho como freelance, produzindo desde vídeos institucionais até clipes para bandas locais.
Sendo hoje o Dia do Rock, qual música ouviria em homenagem?
Hugo Maritutti (BR): Acho que devido à situação caótica que vivemos hoje no mundo, com guerras, fome, pobreza, etc, pode ser clichê, mas Imagine é uma música antiga e mostra que nada mudou, ou só piorou.
Bruno Granato (IS): Já que estou vivendo na Islândia, escolho um clássico do Led Zeppelin que foi escrito inspirado em uma visita que a banda fez por aqui no inicio dos anos 70, Immigrant Song, em que Robert Plant canta: ”We come from the land of the ice and snow, from the midnight sun where the hot springs blow” (praticamente um guia turístico)!

Foto de Bruno Granato.
Maurílio ou Edmundo (piada interna)?
Hugo Maritutti (BR): Maurílio é mito, no futebol de hoje seria capitão de qualquer time do Brasil.
Próximos shows do Viper
13/07 – Bauru – Jack Music Pub
14/07 – Araraquara – Araraquara Rock
20/07 – Curitiba – Music Hall
21/07 – Porto Alegre – Teatro CIEE