A primeira fralda a gente não esquece

Quem me conhece há tempos, sabe que nunca fui um entusiasta do convencional.

Não sei se por ter feito mais de uma dezena de operações quando era pequeno, se por ter morado em mais de duas dezenas de casas antes dos vinte anos ou por ser sagitário com ascendente capricórnio, mas o fato de ser filho de pai uruguaio (pronuncia-se uruguácho) divorciado com mãe então esotérica que se separaram quando eu tinha 9 anos e se casaram 22 anos depois, aliado ao fato de ter perdido um avô fantástico na mesma época e crescido com dois irmãos mais velhos e uma mais nova em São Paulo estudando em colégios como Escola Viva, Nossa Senhora das Graças, Elvira Brandão e, claro, Objetivo, devem ter contribuído para eu buscar viver sempre, digamos, fora da casinha (a melhor tradução para out of the box).

Para terem uma ideia, num rápido giro entre infância e adolescência, coleciono as seguintes fases:

- Aos 9 anos, Terapia.
- Aos 10 anos, já havia sido iniciado na Ordem Rosa Cruz, sabia tudo de cristais e chakras, tomava passe em centro espírita e tinha como meta ser abduzido por extraterrestres (feito que até hoje não sei se foi realizado ou não).
- Aos 11 anos, ligava para a Embaixada do Uruguai para saber o que precisava para aplicar para a residência uruguaia (pronuncia-se uruguácha).
- Aos 12 anos, fundei “O Mundo”, jornal feito de cartolina, caneta e régua cuja redação era na casa da minha vó. Uma cópia a mão por edição. Esgotava na hora (leia-se, ela comprava a única folha de cartolina com as notícias).
- Aos 13 anos, desisti oficialmente de jogar pelo São Paulo Futebol Clube para ser presidente do Brasil (estamos falando de 1989), o lema da campanha seria “Pablo Nacer – Você lá”.
- Aos 14 anos, descobri que só não pensava em mulher quando não respirava (frase do Woody Allen).
- Aos 15 anos, a única profissão que me faria feliz seria baterista. Nessa época, passei o verão trabalhando no bar do meu irmão chamado “Rock n´ Roll Bar” e o restante do ano ocupado na escola na criação do I ElviraFestRock.

- Aos 16 anos, a cerveja já era o elemento socializador entre os amigos e os pais dos meus amigos. A tal da boemia, na melhor ascepção da palavra (não estou falando de balada) começava a me atrair.
- Aos 17 anos, na mesma medida em que a tal da boemia me atraía, elementos cotidianos como emprego estável, namoro sério, casamento e filhos não faziam o menor sentido. E assim permaneceram por mais de uma década e meia.
- Aos 18 anos, após terminar a escola, me mandei de São Paulo, voltando somente com 22.
- Entre os 24 e 26, passei um período de cada ano numa aldeia indígena xavante no Mato Grosso que resultou no meu primeiro livro, Meu Avô A´uwê, lançado aos 27.

- Aos 28, volto à terapia com o dilema entre querer levar uma vida renascentista em pleno século XXI, e querer viver como escritor tendo que pagar contas no fim do mês.
- Aos 29, o vinho apareceu institucionalmente trazendo de volta o jornalismo, que estava meio em baixa, a gastronomia e me conduzindo, indiretamente, para a Austrália, aos 30.

Fiz essa nada pequena introdução para dizer que até a noite de ontem, eu, 35 anos, jamais havia trocado uma fralda.

É verdade! Mesmo sendo tio há quase 17 anos – dois sobrinhos no Brasil e dois aqui -, nunca passei pelo processo uma vez que, ao contrário de 94.7% dos meus amigos, não tenho filho.

E nas vezes em que os meus sobrinhos de 3 anos e 3 meses vêm dormir em casa, eu e a Luciana passamos a noite suplicando à Nossa Senhora das Purezas para que só tenham vontade de fazer cocô quando os pais chegam.

Ontem, porém, com doses de crueldade e deboche, o Patrick ganhou.

Fomos passar algumas horas da noite na casa da Paloma para que ela pudesse sair com o meu cunhado. Pouquíssimos minutos após a batalha do banho (dar banho em gêmos em banheira é uma arte), já devidamente de pijama, o Patrick começa:

- Uncle Pabu, poo poo.
Fingi que não ouvi.
- Uncle Tio, poo poo.
- Agora, Patrick? Mas você acabou de sair do banho (sic)!
- Cocô, Uncle Tio!
- Patrick, então faça na sua privadinha, como você aprendeu.
- Mummy said I can poo poo in my nappy.
- Eu sei, patrick, mas na privada é muito melhor.

Nesse momento, Patrick olha nos meus olhos, levanta os dois braços, abre um pequeno sorriso com gigantesco sarcasmo e diz:

- Uncle Tio, I am doing, I am doing…

Luciana, claro, cai na gargalhada, eu fico totalmente sem saber o que fazer, e Georgia, minha sobrinha:

- Patrick is doing, Patrick is doing…

Ganharam, claro!

Com atraso de, no mínimo, uns 10 anos, tiro a fralda com aquele petróleo fresco, limpo a bunda dele com praticamente uma árvore inteira, tamanha quantidade de papel utilizado, tento colocar a fralda, mas ele reclama, afinal, está do lado errado. Ao tentar arrumar, Patrick mesmo coloca da maneira correta e me mostra como é, dando bronca. Fico mudo. Ponho o pijama novamente e termino com uma imensa bola de fralda, papeis e cocô na mão, sem saber se jogo no lixo, se existe um cesto especial, um incinerador na casa, se devo enterrar, enfim, essa história de querer viver fora da casinha, levar vida renascentista e abraçar a boemia, tem hora que não rola.

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6 Responses to A primeira fralda a gente não esquece

  1. Pabloooo!!
    qto tempo não passava por aqui! Tá lembrado de mim, da Anhembi?
    Poxa, adorei seu relato! Morri de rir. Já eu tenho procurado uma vida bastante “inside the box”! Tanto que tenho um blog (não tão popular quanto o seu) chamado: Por Uma Vida Mais Ordinária! kkk E fraldas são meu novo “diferencial competitivo”, já que tenho um baby de um ano! kkk
    Vou adicionar seu blog na minha blog roll e te seguir!
    bjs!
    Rê Senlle
    http://umavidamaisordinaria.blogspot.com

  2. Camilla de Andrade says:

    Pableira, impossível não comentar esse post!!! Simplesmente sensacional o seu relato!!!!! ahahahahahahahahhaaha
    bjs saudosos!!!

  3. Alexandre Maximiano says:

    Olá, Pablo.
    Gostei muito do teu relato. Poderia chamar de crônica?… De qualquer forma ficou muito
    bom, e se me permite, ao melhor estilo Luis Fernando Veríssimo. Me perdoe se a comparação te parecer inconveniente, pois eu não sou o menos leigo nesse assunto. Mas sobre trocar fraldas… Ah, isso sim eu entendo, pois troquei as de 5 irmãos, 2 sobrinhos e de meu filho. kkkk
    Abraço.

    • pablito says:

      Oi, Alexandre, muito obrigado pelo comentário e pela menção ao LFV, apesar de saber que é incomparável.

      Só de imaginar a quantidade de fraldas que você trocou dos irmãos, sobrinhos e filho, tive que correr para o telefone e ligar para a minha terapeuta, pois confesso que estou levemente neurótico desde o episódio com o Patrick.

      Grande abraço!

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