Nesta quarta-feira, 7 de setembro, nenhuma cidade australiana terá um show tão brasileiro para comemorar o feriado como Perth.
Amanhã, Perth, Western Australia, a capital mais distante de qualquer outra capital do mundo, terá um show legítimo de bossa nova com a cantora Juliana Areias, que apresenta Juliana Areias – The Bossa Nova Baby no The Ellington Jazz Club (191 Beaufort St).

Os ingressos estão esgotados há três semanas. Ou seja, quem não comprou, o jeito é tentar um lugar na parte de cima da casa para assistir pelo telão. Se preferir, foi anunciada apresentação extra na mesma casa em 19 de outubro. Portanto, corra para garantir o seu ingresso (aqui).
Daqui a pouco mais de duas semanas, em 19 de setembro, Juliana estará em Sydney onde cantará acompanhada do percussionista Márcio Mendes no Ritmo Festival, do Bracca.
A seguir, a cantora fala sobre a carreira, influências, o show desta quarta e a Brazil WA, associação recém-fundada em Perth da qual é vice-presidenta.
O escritor Ruy Castro lhe deu o apelido “Bossa Nova Baby”. Quando e como foi isso?
Essa é uma historia interessante. Nos conhecemos há exatamente 20 anos, em setembro de 1991. Ruy estava fazendo uma sessão de autógrafos do seu livro Chega de Saudade, no shopping Morumbi, onde acontecia uma programação de duas semanas de shows e eventos relacionados à bossa nova. Eu ia todos os dias e sabia cantar praticamente todas as músicas que Carlinhos Lyra, Roberto Menescal, Tito Madi, Alayde Costa, Billy Blanco, Leny Andrade, Carlos Vinhas, Os Cariocas, dentre outros, apresentavam. As pessoas ficavam muito admiradas como uma menina de 16 anos podia conhecer, se interessar e ser tão apaixonada por bossa nova. Acabei ficando amiga da produção do evento.
No dia que Ruy foi autografar, o Apolo, que era da produção, me levou até ele e disse: “Essa aqui é a menina de que lhe falei”. Ao inves de eu falar “Oi, tudo bem, parabéns, gosto muito do seu livro”, olhei bem pra cara do Ruy e disse com toda rebeldia, sinceridade e convicção do auge adolescente dos meus 16 anos: “Você roubou minha ideia, era eu que ia escrever esse livro”. Eu estava falando sério, pois além de já ter nascido ouvindo João Gilberto com meu pai, desde os 12 anos esse elo perdido da infância tinha sido despertado novamente e eu me dedicava apaixonadamente a pesquisar sobre bossa nova, passando todo o meu tempo livre dentro do Centro Cultural de São Paulo com o fone de ouvido devorando o acervo de discos e livros que eles tinham sobre o assunto. Ao ouvir a minha ousadia, Ruy abriu o maior sorriso e me chamou para tomar um sorvete depois da sessão de autógrafos.
Fomos, conversamos muito, nos tornamos amigos. Nessa época ele estava morando em São Paulo, no Sumaré, e me mostrou uma série de gravações raras, me deu LPs históricos, me levava pra assistir shows e ensaios com ele e me deu uma credencial de imprensa que me permitia circular nos bastidores do Show Chega de Saudade, que foi feito em virtude do livro e estreou no ano seguinte. Vem dessa época o apelido de “Bossa Nova Baby” ou “Marcotinha da Bossa Nova”, que era como ele me chamava e me apresentava para as pessoas. Graças ao Ruy, pude conviver com muitos dos meus ídolos de perto, aprender com eles, pessoas como Ronaldo Bôscoli, Luizinho Eça, Johnny Alf, Tião Neto (baixista do Tom Jobim), Claudete Soares, Peri Ribeiro, Wanda Sá e Rosa Passos. Num desses shows, Miele me botou na fogueira e me deu seu microfone pra eu cantar Corcovado junto com Peri Ribeiro e Wanda Sá, de surpresa. Pessoalmente, acho que cantei mal e tenho trauma dessa música até hoje (risos). Eu ainda não era cantora profissional, apenas atriz.
Quando chegou na Austrália? Você já havia morado em outros lugares fora do Brasil? Esteve sempre cantando?
Mudei para a Austrália em outubro de 2007, vinda da Nova Zelândia, onde morei por 7 anos trabalhando como cantora e também como expert em música brasileira e assistente de pesquisa para a Universidade de Auckland, realizando um projeto chamado Free-samba, que foi a base da tese de PhD do pianista e professor inglês Christopher Naughter. Esse projeto, além de dar origem ao seu livro The Thrill of Making a Racket: Nietzsche, Heidegger and Community Samba in Schools, foi fundamental também na criação de uma importante influência brasileira na música neo-zelandesa contemporânea.
Quais as suas principais influências musicais?
Além do universo da bossa nova, que é a minha essência como pessoa e meu pulso e impulso original como cantora, amo uma infinidade de coisas e a cada dia mais sinto que tudo é inspiração, e sou grata por isso.
A característica mais forte do meu cantar é a ginga, o senso rítmico, a divisão sincopada. Nesse sentido, minhas principais influências foram Leny Andrade, Rosa Passos e Leila Pinheiro. Na infância, Rita Lee, Celly Campelo, Diana Pequeno e Madonna (risos).
Meus três compositores prediletos são Tom Jobim, Djavan e Stevie Wonder. Mas amo também João Donato, Hebert Vianna, Lenine, João Bosco, Gil… tenho fases Caetano e Chico… Maria Gadu me surpreende como compositora, algumas coisas da Céu e Zeca Baleiro também. Sambas bonitos desde Cartola, Dorival Caymmi até Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz também me encantam. Cada dia ouço e aprecio mais jazz, compositores como George Gershwin e Duke Ellington.
Adoro o trabalho instrumental de Egberto Gismonti, Rafael Rabello e Romero Lubambo com César Camargo Mariano, e já tive fases de ouvir muita Cássia Eller, Cazuza, Emílio Santiago, Ed Motta, Jorge Vercílio…
Sou fã do talento dos amigos espalhados pelo mundo: Tiago Araripe, Vainer Dias Gomes, Tito Bahiense, Alê Kali, José Augusto Alves, Mani Fagundes, Johannes Dimyadi e James Flynn (cantor de jazz aqui de Perth, meu convidado especial no show de 7 de setembro).

Pelo jeito você também gosta das cantoras da nova geração.
Com certeza! Gosto em especial da Gadu, Céu e Maria Rita. Dessas três, faço questão de receber os discos do Brasil. Algumas coisas do trabalho da Roberta Sá me agradam também.
Qual é o seu envolvimento com a Brazil WA?
Sou uma das inspiradoras, fundadoras e atual vice-presidenta da Associação Brazil WA – The Brazilian Associacion of Western Australia, que foi oficialmente fundada em 8 de março de 2011, mas já se movimentava há mais de um ano. Na prática, sou uma espécie de porta-voz da associação, responsável, por exemplo, pela coordenação, elaboração e distribuição da newsletter e do website.
Qual é o objetivo e o que a BrazilWA tem feito?
O objetivo é ter um orgão com representatividade e força política que ajude a comunidade brasileira a se organizar, se desenvolver, se reconhecer e ser reconhecida, ao mesmo tempo em que essa comunidade possa cada vez mais também contribuir positivamente com a sociedade onde vivemos.
A estratégia usada para isso é principalmente a comunicação, a circulação de informações e o apoio e incentivo a atividades de caráter cultural, que promovam tanto nossa própria identidade quanto o interesse de outras culturas por ela, criando integração e admiração mútuas.
Na prática, fazemos isso mantendo a newsletter e website que divulga tudo o que está acontecendo de interessante na comunidade, apoiamos e divulgamos campanhas como a “Responda ao Censo” e “Faça sua voz valer na IV Conferência de Brasileiros no Mundo” e promovemos e apoiamos eventos culturais como festas juninas, festivais de cinema etc.
Quais são as principais necessidades dos brasileiros em Perth?
Por ser a parte mais remota e isolada da Austrália, uma das maiores necessidades da comunidade local seria ter um consulado por aqui. Necessidades de mais eventos culturais, artísticos e esportivos com enfoque familiar e infantil também aparecem na lista.
Sobre o show de 7 de setembro, fale sobre o Ellington Jazz Club, o repertório que apresentará e os músicos que vão acompanhá-la.
O Ellington Jazz Club já foi eleita a melhor casa de música ao vivo da cidade por dois anos consecultivos. É o templo da boa música em Perth. Portanto, fazer parte do time de artistas que se apresenta lá é uma grande satisfação. Perth tem uma tradição de jazz fortíssima há mais de 30 anos, e a melhor faculdade de jazz de toda a Austrália, a WAAPA, está aqui, o que acaba atraindo cada vez mais bons músicos para ir perpetuando essa tradição.
Me sinto muito feliz e privilegiada de morar aqui e poder desfrutar e dividir o palco com alguns dos melhores e mais versáteis músicos da Austrália, dentre eles, o vilonista Glenn Rogers, o pianista Tal Cohen, os baixistas Nick Abbey e Pete Jeavons, o saxofonista Paul Millard, o baterista Michael Boase (líder da fantástica e swingadíssima Beleza Samba School) e o multi-talentoso percussionista brasileiro Márcio Mendes.
No show desta quarta terei dois convidados superespeciais: Victoria Newton e James Flynn, dois dos melhores cantores de jazz residentes na Austrália. O repertório vai mostrar a evolução da bossa nova, desde seus precursores e canções clássicas como Garota de Ipanema, Chega de Saudade e Águas de Março, de Tom Jobim, até bossas contemporâneas de artistas como Cazuza, Marisa Monte e Rosa Passos, além de duas canções originais minhas: Maré Cheia e Takapuna.
Um dos objetivos do show tambem é mostrar que embora Tom Jobim seja o maior compositor da bossa nova, o trabalho do Tom vai além dela, assim como a Bossa Nova também vai além do Tom Jobim. Pra demosntrar isso, incluí no repertório uma das minhas músicas prediletas do Tom chamada Demais e canções de outros compositores como Lyra, Menescal e principalmente João Donato, que foi um dos caras que influenciou João Gilberto a criar “a batida diferente” da bossa nova e está vivo e produzindo lindamente a mil até hoje, já na faixa dos seus 80 anos (se apresenta de vez em quando com Marisa Montes e Maria Gadu, inclusive). Farei também uma homenagem ao violonista Rafael Rabello, apresentando uma versão cantada do seu genial arranjo de Garota de Ipanema, sendo assim, um duplo tributo ao Tom e a ele.






