
A crise da banana (no bom sentido, é claro) de 2011, que elevou o preço de $2 o quilo para cerca de $20 após a devastadora passagem do ciclone Yone por Queensland, é justificável, afinal, atingiu 3/4 da produção de bananas da Austrália.
Mas que catso acontece com o famigerado tomate cujo preço do quilo, nas últimas semanas, subiu para $8 nas grandes redes de supermercado e chega a 12 merréis em praças como, Dulwich Hill, por exemplo, segundo o grande Edgee Ribeiro?
Pelo o que ouvi de um plantador de beterraba da vizinhança, a culpa é de North Queensland sempre Queensland, mais precisamente de Bowen (o que imagino ser a capital australiana do tomate), área rural que tem apresentado péssimas condições para o crescimento dos tomateiros.
Mas precisa subir tanto?
Sendo o tomate um fruto (isso, fruto, não legume) originário das Américas do Sul e Central que tem seu cultivo historicamente ligado a alguns povos pré-colombianos, entre eles os maias (aquele mesmo do calendário), me assusta o que pode significar – se fizermos uma leitura um pouco mais profunda – a crise dos tomates em pleno 2012, ano de Corinthians, Chelsea, Celso Russomano e Andy Murray. Início do fim do mundo? Confirmação das predileções de Nostradamus? De qualquer maneira, não quero pagar pra ver (literalmente).
Mas eu precisei!
Sem me dar conta de que estávamos em plena crise dos tomates, anteontem fui ao supermercado comprar os ingredientes para fazer uma moqueca na terça e uns burritos na quarta. Ou seja, na mais econômica das hipóteses, seriam necessários ao menos um tomate grande para a moqueca, um médio para o guacamole e outro médio para refogar com a carne moída.
Após comprar praticamente todos os insumos da moqueca, eis que me defronto com o grande monstro de bolas vermelhas: a gôndola dos tomates. O preço, $8, era praticamente um silvícola maia salivando para uma virgem donzela em pleno ritual de sacrifício humano. Pior, nem vermelhos eram os monstros, mas laranjas, pois os tomates ainda estavam duros e nada maduros.
Como eu já carregava o restante das compras na minha sacola ultra-ecológica feita com fibra de piolho criado sustentavelmente no rabo do coala-leão-dourado, apertei alguns tomates, observei outros, cherei, fiz embaixadinhas, dei um “pedala, Robinho” num australiano que passava, tornei a observá-los, pesei, enfim, fiz o diabo pra tentar achar a melhor relação três-tomates-custo-benefício.
Quatro dólares e noventa e oito centavos depois – em tomates -, fui pra casa iniciar a moqueca.
Nunca tive tanto zêlo para cortar um tomate. Afiei a faca, abaixei a música, fechei a janela para impedir a ação do vento, deixei para abrir a cerveja depois e, mais importante, inverti a cronologia, passando o tomate na frente da cebola para evitar que as lágrimas prejudicassem a operação. Deu certo, consegui cinco belas rodelas e o mínimo de desperdício.
Pablito 1 x 0 North Queensland.
Ontem à noite, quarta, a operação foi ainda mais delicada, pois envolvia dois tomates, cervejas e, claro, uma branquinha, pois comida mexicana em casa pede cachaça.
Infelizmente, com alguns motivos para comemorar, não me preocupei muito com a ordem dos fatores e fui logo iniciando os trabalhos com cerveja, cachaça e o preparo do guacamole, o que envolveu o tomate número dois. Até que foi tranquilo.
O papo com a Lu estava bom, Rubén González apavorava ao piano, cortei a cebola e a cenoura, esmaguei o alho, comecei a refogar, subiu aquele aroma típico de Brasil, coloquei a carne moída, mexi, mexi, dá-lhe cerveja neozelandesa (Monteith´s, recomendo), cachaça Claudionor (obrigado, Luiza), Rubén González tocando Almendra, juntei o tempero mexicano, deixei curtir um pouco e, quando estava praticamente tudo pronto, olho para o lado e quem está lá, esquecidão, solitário e amargurado?
O nosso amigo tomate número três, provavelmente algo em torno de $1.78. Aquilo foi praticamente um tiro no peito em um filme do Terence Hill e Bud Spencer, daqueles que voava tomate e cat-chup pra todo lado. Confesso que quase chorei. Pô, depois de toda a epopeia econômica no mercado, do zêlo na primeira noite, da devoção na segunda, simplesmente abandonei o danado.
Resultado final:
Pablito 2 (tomates) x 8 (dólares o quilo) North Queensland.
É o fim do mundo!