Ontem, por volta da hora do almoço, eu conversava com um amigo pelo telefone quando ele solta um caraaaaaaca, olha isso. O que foi? Estão passando várias baleias aqui na frente, uma, duas, três… caraaaaaaca são quatro.
Sabendo que o carioca (sim, com dois caraaaacas em duas frases, obviamente é carioca) mora entre Dover Heights e Diamond Bay, ao norte de casa, e que estamos em plena temporada migratória das baleias rumo ao sul, não tive dúvida, peguei a câmera e corri para a praia.
O tempo estava levemente inconstante, o que numa leitura um pouco mais, digamos, esotérica, não é favorável para a observação de baleias. Mas xavante que sou, fiquei em posição de lotus em uma das pedras no alto do penhasco norte de Coogee Beach e esperei.
Passaram-se dez mintuos.
Nada.
Quinze, vinte minutos…
De repente, vejo algo se mexendo próximo à ponta de Clovelly. O coração acelera e aciono o zoom da máquina que, ao se aproximar do suposto cetáceo, revela um solitário surfista.
Paciência.
Tentando uma conexão mais profundo, fixei o olhar no horizonte, leste, sabendo que ali na frente, a algumas milhas, encontra-se a Nova Zelândia, terra dos Maoris e do grande Paikea, o notório domador de baleias da tribo Ngati Porou, retratado no ótimo filme Encantadora de Baleias (2002).
Mais dez minutos de espera e eis que algo se mexe no horizonte. O coração novamente dispara e eu, emocionado com o êxito da conexão Maori, preparo a câmera enquanto canto mentalmente os versos do haka, a tradicional dança de guerra Maori.
Ringa pakia!
Uma tiraha!
Turi whatia!
Hope whai ake!
Waewae takahia kia kino!
Ka mate, ka mate
Ka ora’ Ka ora’
Ka mate, ka mate
Ka ora Ka ora “
Tenei te tangata puhuruhuru
Nãna i tiki mai whakawhiti te rã
A Upane! Ka Upane!
Upane Kaupane”
Whiti te rã,!
Hi!
Devo ter errado alguma parte, pois mais uma vez não era o meu cetáceo preferido, mas um ser da minha espécie num jet-ski.
Pior, ele e o surfista interagem como golfinhos num desses shows de parque aquático da Gold Coast, fazendo-me sentir um tremendo babaca.
Cabisbaixo e conformado por ser muito mais uruguaio e paulistano do que xavante, deixo o meu posto de observação e contorno a praia na esperança de um grande momento, daqueles dignos de filmes quando a música sobe, o dia se ilumina e o nababesco mamífero dos mares emerge fazendo acrobacias mirabolantes e dando barrigadas espalhafatosas, em câmera lenta, claro – praticamente uma Priscila, a Baleia do Deserto.
Mas não foi nada disso. O céu se iluminou, é verdade, mas em vez da grande Orca, da minha Free Willy Dundee, com a trilha sonora:
Heal The World
Make It A Better Place
For You And For Me
And The Entire Human Race
O máximo que vi foram gaivotas devoradoras de restos de fish and chips numa clara manisfetação segregatória, discriminatória, evocando a fábula do Patinho Feio.
No caso, da gaivotinha feia, que foi para um lado, e eu, o babaca, sem chapa alguma de baleia, para o outro.









“Cabisbaixo e conformado por ser muito mais uruguaio e paulistano do que xavante”.E eu pensava que era inconformado!!
Da proxima vez,pegue a bike e va rapidinho para Diamond Bay