Monthly Archives: April 2012

#Veta, Dilma

Em mais uma demonstração de que deputados e senadores legislam em causa própria e não pelos interesses do país, ontem a bancada ruralista deitou e rolou em cima do novo Código Florestal, aprovando o texto-base no Congresso com diversas modificações altamente prejudiciais ao meio ambiente e favoráveis aos criminosos.

O texto segue para sanção presidencial, o que significa que agora somente a presidentA Dilma Rousseff pode vetá-lo. A mesma Dilma que quando concorria à presidência prometeu vetar o projeto de lei que desfigura o Código Florestal.

Ou seja, para cobrar coerência, o Greenpeace lançou a campanha Veta, Dilma, que incentiva todo o planeta a assinar uma petição pressionando a presidente a cumprir sua promessa (assinar).

Abaixo, o novo vídeo da organização e, na sequência, o texto da petição.

Presidente Dilma,

Estou muito preocupado em ver que a Amazônia está novamente sob ameaça. Após anos de desmatamento baixo, a floresta voltou a cair sob motosserras e tratores, assim como as populações fragilizadas no campo, vítimas da violência.

Vejo que isso tem ligação com a proposta de mudanças do Código Florestal. Esse texto abre brecha para mais desmatamentos e anistia quem cometeu crimes no passado, sabemos que é possível dobrar nossa produção de alimentos sem precisar desmatar mais. Eu não quero essa lei em vigor e não é o que espero da presidente. Nas eleições, a senhora prometeu que não deixaria um texto assim ser aprovado.

Uma floresta preservada é importante para a biodiversidade, para a sobrevivência das populações que dela dependem, para a agricultura familiar que produz minha comida e para os demais produtores que precisam dos serviços ambientais. A floresta é essencial para controle do aquecimento global, e o Brasil que a senhora governa assumiu um compromisso internacional de redução de suas emissões de gases-estufa. Quero vê-lo cumprido.

Está em suas mãos decidir se a nova lei vai para a frente e se suas promessas – para mim e os demais eleitores, e para o público internacional – serão realmente cumpridas.

Por favor, vete o projeto do Código Florestal. Você pode salvar a Amazônia e as demais florestas brasileiras da destruição.

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A senzala e o caviar

Uma sociedade cujos valores estão baseados na cultura do consumo desenfreado e que, ainda por cima, incentiva o endividamento de sua população através de financiamentos a perder de vista, dificilmente vai conseguir se livrar da mentalidade dos tempos da senzala.

Poucos feitos na história recente do país foram tão importantes como a chamada ascensão da classe C, que proporcionou um mínimo de dignidade a milhões de brasileiros em todo o país.

O problema, porém, está na base. Ascende-se economicamente, mas não em ensino, instrução, educação e cultura (e isso também aplica-se para as classes B e A).

Com a quantidade de televisão que se assiste por aqui, a infinidade de novelas diárias que passa na emissora de maior audiência, forma-se uma massa passiva sem a menor capacidade para discernir, e muito menos para pensar.

Tempere isso com doses cavalares de incentivo ao consumo desenfreado e ao endividamento através de financiamentos a perder de vista nos intervalos, e o resultado é uma população desesperada para adquirir todo e qualquer supérfluo que chega ao mercado. E neste meio tempo, claro, gol do Brasil!

Vive-se numa imensa bolha de consumo e, por estar dentro, não se faz ideia do que acontece e onde está. Apenas segue-se em frente, comprando e nunca satisfeito, afinal, sempre vai achar que precisa de mais. Um dia essa loucura vai estourar.

A economia do Brasil vai bem, obrigado. O país já não come somente o frango do Real, mas se delicia com peru, pernil e um bom filé de carne. O problema típico de emergente é que já está arrotando caviar.

Dinheiro é bom, adquirir coisas é legal, adoro comprar vinho, viajar, mas senso de valor (no sentido mais amplo, não apenas no monetário) é fundamental.

Estudar, acumular conhecimento e instruir-se, principalmente pensando nos anos que estão pela frente no país, é disparado o melhor investimento. O cara que tem um carrão zero parcelado em 50 vezes e não aprende inglês ou faz uma especialização porque está sem grana, é um idiota.

Todos sabem da quantidade de trabalho que tem e terá por aqui nos próximos anos por conta do crescimento econômico, Copa do Mundo e Olimpíadas, em especial para as pessoas capacitadas, com bons currículos.

Sempre fomos o país do futuro e parece que chegou a hora.

Mas de nada vai adiantar sermos a nação mais rica do planeta, se ainda tivermos empregada doméstica chegando de carro na casa da patroa, trabalhando com o último modelo de iPod no ouvido e pensando na próxima geladeira que vai comprar, se ela ainda tiver que subir pelo elevador de serviço.

O que adiantou ela ascender economicamente, se a mentalidade do país ainda está entre a senzala e um modelo de consumo que não vai levar a parte alguma?

O Brasil tem a faca e o queijo nas mãos, a hora é agora para dar educação ao povo, que já não está tão desesperado de fome. Em vez de arrotar caviar, é hora de ensinar a fazer.

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Lest We Forget

 

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Ben Stiller das Laranjeiras

Dez anos depois, volto ao Rio, agora tecnicamente casado. A base? Laranjeiras, onde a Lu nasceu e boa parte da família vive.

Do alto, o filho do Onipresente não disfarça o apreço que tem pelo bairro onde moraram figuras como Villa-Lobos, Cecília Meirelles, Portinari, Cartola, Ronaldo Bôscoli e, claro, a princesa das palmeiras imperiais, Dona Isabel.

Por terra, a instituição predominante é uma só: Fluminense Football Club.

Tricolor em São Paulo, não tive qualquer problema em assumir o do Rio como clube carioca do coração desde nascência, até porquê não teria outra opção: a família da Lu é 100% Flu. E foi neste contexto que, no melhor estilo Ben Stiller, estreei com tudo na última quarta-feira.

Já em terras cariocas, acompanhei como um neo-fanático a emocionante vitória do Fluzão (se ligaram na intimidade?) sobre o forte Arsenal de Sarandí: 2 a 1 fora o baile, plério disputado na casa do inimigo, “em Arsenal”.

Orgulhoso com a elevada temperatura do meu pé e querendo fazer média com o sogro, assim que ele voltou do trabalho, mais de uma hora após o término do jogo, fui puxar papo. De fundo, uma partida de futebol passava na TV que, pelo avançar das horas, imaginei que fosse do Corinthians, também pela Libertadores.

O assunto, claro, Fluminense, e já entrei com Que vitória do Flu, hein seguido por Gol no último minuto é para matar do coração. Ansioso para continuar demonstrando o meu neo-amor ao clube do Cartola, não deixei o sogro falar e emendei um Teve até atacante adversário pegando pênalti nosso.

Neste momento, senti o primeiro calafrio ao ver que a partida na TV não era do Corinthians, e sim do Fluminense. O placar? 0 a 0. Levemente constrangido, ele comentou Aconteceu isso tudo? Deve ter sido um jogaço mesmo, vou continuar assistindo. Não preciso dizer que o calafrio se transformou em suor, certa tremedeira e início de pânico.

Deixei a sala com uma desconfiança do tamanho do Maracanã de que eu acabara de dar uma das maiores mancadas em verde, branco e grená dos últimos tempos.

Ao comentar com a Lu, a certeza de que me transformara no Ben Stiller das Laranjeiras.

É, Pablo, hoje o meu pai estava estreando o DVD gravador de TV que comprou na semana passada. Ele terminou de dar aula, tomou todo o cuidado do mundo para não saber o resultado do jogo e chegou em casa correndo para assistir inteiro, como se fosse ao vivo. Mas, pelo jeito, você acabou com a festa.

É, meus amigos, meu pé pode ser quente, mas certamente usei o esquerdo, pois estraguei tudo.

No dia seguinte, atravessei a Pinheiro Machado e fui ao campo do Fluminense pedir uma luz à Sua Santidade João de Deus, o padroeiro do clube. De quebra, declarei o meu amor incondicional à agremiação relevando a queda à terceira divisão e evoquei Gérson, o canhota dos Tricolores.

Imediatamente, veio forte a lembrança de um episódio da história do Santos Futebol Clube que eu havia escrito em 2002, num livro sobre o clube que talvez seja lançado neste ano por conta das comemorações do centenário do Peixe.

O personagem era Luiz Matoso, mais conhecido como Feitiço, o primeiro grande ídolo da torcida santista, que atuou entre 1927 e 1932 e depois voltou em 1936.

Além de notório craque, Feitiço também era conhecido pela raça e seu jeito explosivo. Numa decisão entre a Seleção Paulista e a Seleção Carioca, em 1927, no estádio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, ele foi protagonista do seguinte caso.

O placar mostrava 1 a 1 quando, aos 28 minutos do segundo tempo, o juiz Ari Amarante marcou penalidade máxima a favor dos cariocas. Revoltados, os paulistas passaram a chutar a bola para longe, toda vez que o adversário a posicionava na marca de pênalti. A confusão foi inevitável e o tumulto prosseguiu por uns quinze minutos, até que o presidente da República, Washington Luís, que assistia ao jogo na tribuna, enviou um oficial ao gramado ordenando que fosse cobrada a penalidade. Depois que Feitiço ouviu o recado presidencial, ele retrucou: “Diga à Sua Excelência que ele manda é no Palácio do Catete, e que, aqui em campo, mandamos nós.”

Em resumo: se até o presidente já passou por maus bocados por estas bandas, por que não este simples escriba?

A bênção João de Deus!

Ass: Ben Stiller das Laranjeiras

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Wa´rã – Homenagem ao Dia do Índio

Em homenagem ao Dia do Índio, trecho do meu livro, “Meu Avô A´uwê”, que fala sobre um dos aspectos do Xavante mais aplicáveis no nosso dia a dia: o wa´rã.

xavante

Capítulo 4 – Descobrindo um novo Mundo
A NOITE

Quando anoiteceu, toda a agitação da aldeia diminuiu. A criançada dorme cedo, logo que o sol se põe, e a partir de então faz muito silêncio. Ainda se ouviam algumas pessoas conversando, crianças falando e chorando dentro das ocas, mas só. O principal som vinha da natureza, dos pássaros e cigarras. O céu na aldeia é o mais fantástico que já vi em toda minha vida. Como ela está em uma reserva de 328 mil hectares, não há luz elétrica por perto, muito menos emissão de poluentes. Sem essas interferências, o que se vê é uma noite absurdamente estrelada, com satélites artificiais e estrelas cadentes passando a todo instante, constelações facilmente identificáveis, a Via Láctea extremamente distinta e a lua iluminando o pátio da aldeia. Para quem aprecia uma bela noite com muito do que o céu tem para mostrar, é fascinante. Principalmente no mês de julho, quando não chove e raramente há nuvens.

Nesse dia, não me lembro por quais razões, não houve o tradicional wa´rã. O wa´rã é a reunião dos anciões pertencentes ao conselho tradicional da aldeia, em volta da fogueira, no centro do pátio, para conversar sobre tudo o que aconteceu no dia e o que está para acontecer nos próximos. Sentados ou deitados em esteiras, eles atualizam os assuntos e tratam das questões que ficaram sem solução. É como se no final de cada dia as pessoas limpassem tudo para que o dia seguinte começasse livre, sem nada pendente. Para mim, esse foi um dos hábitos Xavante, aplicáveis na nossa vida, que mais me chamou a atenção. Como não houve o wa´rã, Wazaé esticou uma esteira de palha de buriti do lado de fora da oca e pediu para Cipassé nos chamar. Clara, Estela, Valéria, minha mãe, Cipassé, Clarinha e eu esticamos algumas esteiras e nos sentamos na frente dele. Debaixo daquele “teto” incrível, ouvindo apenas os sons que vinham da mata e sentindo o cheiro da vegetação seca do Cerrado misturado com o da fumaça de uma pequena fogueira que havia no centro da aldeia, escutamos Wazaé.

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Triste vista para o Araçá

Segunda-feira à noite, dia seguinte ao enterro, fui recebido pelo João Eduardo Laudisio e pela Patricia Laudisio, tios do Roberto, e pais do Eduardo, o primo de praticamente mesma idade.

Foi neste apartamento com vista para o Cemitério do Araçá onde agora está enterrado que o Roberto Laudísio passou boa parte de sua vida, principalmente após a morte dos pais.

Conforme escrevi anteriormente, não conheci o Beto pessoalmente. Porém, nas últimas semanas vi tantas imagens e ouvi falar tanto dele que acabei criando uma imagem na minha cabeça.

E o impacto que tive ao conhecer o Eduardo, o primo-irmão-amigo, foi gigantesco, tamanha semelhança. Afinal, além do sangue comum, também cresceram juntos.

Falar com o Eduardo foi ter a conversa com o Beto que eu nunca tive, e com os tios a certeza de que a Austrália deve respostas, uma vez que a perda, o sofrimento e a indignação causadas ficarão para sempre.

Eles têm o direito de saber o que aconteceu, como e porque, assim como as irmãs, a avó que o teve sob custódia até completar 18 anos e todos os demais familiares e amigos que no último domingo voaram de três continentes para se despedirem do Beto.

As circunstâncias da morte ainda estão nebulosas, há muitos pontos abertos que certamente as imagens das câmeras das duas lojas de conveniência, das ruas King e Pitt e do (s) Taser (s) disparado (s) responderiam, mas somente as investigações vão explicar.

Enquanto isso, num apartamento com vista para o Araçá, os Laudisios convivem diariamente com o inexplicável.

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