Entre a ação da Polícia Militar de São Paulo na Cracolândia e a do Pinheirinho, no último domingo, foram praticamente três semanas.
Três semanas em que o crack, ao lado do suposto estupro no BBB e da Luiza no Canadá, foi o grande tema nacional.
De uma hora pra outra, “especialistas”, “prós-usuários”, “anti-drogados” e tantos outros apareceram na grande mídia e nas mídias sociais, expondo seus pontos de vistas, opiniões, achismos e o diabo a quatro.
Agora, porém, que o crack perdeu o posto de assunto da vez para a expulsão do Pinheirinho, praticamente não se fala. É como se o problema não nos pertencesse mais.
E assim o Brasil caminha rumo ao Carnaval.
Quem me acompanha aqui no blog e no Facebook, viu que o meu irmão, Fabian Nacer, teve os seus 15 minutos de fama.
Do SPTV da Rede Globo à última Veja, passando por rádios como Estadão e CBN, portal Terra, entre outros, ele esteve em vários lugares.
Começou com a carta Eu Morei na Cracolânida, enviada para alguns veículos e publicada no jornal O Estado de São Paulo. A repercussão foi grande e ele logo foi procurado pela produção da Rede Globo. Uma vez no plim-plim, telefonemas e emails não pararam.
Mas, infelizmente, salvo raras exceções, queriam muito mais saber da história dele e ficar nessa, do que realmente abordar a questão e, mais importante, tentar buscar soluções.
Claro, é importante mostrar que um cara que viveu seis anos no crack largou o vício e recuperou a vida. Mas após mostrar isso, vamos em frente, Fabian, você que esteve lá e hoje está vendo do outro lado, o que pode ser feito? Como você vê a ação do governo do estado na Cracolândia? Qual teria sido a melhor ação? Como o poder público pode enfrentar o problema? Por onde começar? Qual a abordagem? Você faz algum trabalho com dependentes? Tem obtido resultados?
Não estou falando que o meu irmão viria com todas as verdades absolutas sobre o problema, longe disso, mas seriam opiniões de alguém que convive com a questão há quase três décadas, seja como usuário, dependente, ex-dependente, consultor e agora iniciando mestrado sobre o tema.
Mas, obviamente, é muito mais espetacular ouvir histórias de que ele ficou mais de um ano sem tomar banho e escovar os dentes, que estava tão magro que entrava nos bueiros etc.
Eu poderia aqui, como irmão e jornalista, fazer textos emocionantes lembrando, por exemplo, de um Natal que íamos para a casa da minha avó, na Vila Olímpia, e, ao passar por uma rua próxima à Via Funchal, lá estava ele, sozinho, sentado sobre um papelão e enrolado num cobertor. Paramos para falar com ele, que estava noiado e mais parecia um zumbi, e depois seguimos para mais um Natal de família classe média.
A grande e arcaica imprensa brasileira precisa amadurecer, aproveitar o espaço que dispõe e o poder de disseminação que tem para assumir seu papel de agente mobilizador, trazendo o debate, dando voz para quem tem o que dizer e contribuindo para apontar caminhos, e não somente reportar superficialmente (como foi a matéria da Veja), tentar fazer sensacionalismo (como foi com a do Terra) e faturar em cima da desgraça alheia (não vou nem comentar sobre a entrevista que fizeram com o meu pai).
Felizmente, as coisas estão mudando. E rapidamente. Dezenas, talvez centenas, de boas ongs, associações, jornalistas e blogueiros livres das amarras da grande imprensa estão espalhados pelo mundo e interligados na internet, marcando em cima com seus blogs, concentrando e potencializando determinados assuntos através das hashtags nas mídias sociais e fazendo a coisa aparecer e acontecer. SOPA e PIPA não estão no congresso norte-americano por acaso.
São pessoas e blogs como o Repórter Brasil, do Sakamoto, que me fazem ter a certeza de que, a grande e arcaica imprensa brasileira, se não está com os dias contados, terá cada vez menos controle sobre a notícia. E se eles não querem abordar, nós aqui em baixo queremos. E vamos!
Ainda não temos o alcance que eles têm, mas como eu disse, as coisas estão mudando.
E para qualquer jornalista sério que deseja se aprofundar na questão do crack e de outras drogas, elevando o nível da discussão, conversem com o meu irmão. Falo o mesmo para ongs, associações, famílias e o próprio poder público. Ela já não desperta mais o interesse na grande mídia, mas pode ajudar a salvar muita gente se procurado por quem realmente quer enfrentar o problema.